Eleições Históricas: 1952 (Eisenhower vs Stevenson)

Em 2016 teremos uma eleição nos Estados Unidos sem que o atual presidente esteja entre os candidatos. Nas próximas quartas-feiras vamos lembrar algumas eleições históricas em que isso também ocorreu. Hoje falaremos da disputa de 1952, entre o general Dwight Eisenhower (republicano) e o então governador de Illinois Adlai Stevenson (democrata).

Os Estados Unidos em 1952

Em 1952, os Estados Unidos estavam no vigésimo ano de administrações do Partido Democrata. Foi o mais longo domínio de um partido na presidência fora os 28 anos (1801-1829) do antigo Partido Republicano (não confundir com o atual, surgido nos anos 1850). Sob a liderança de Franklin Delano Roosevelt, eleito presidente quatro vezes seguidas – na época não havia limite de mandatos, embora tradicionalmente a regra informal estabelecida pelos dois mandatos de George Washington tenha sido seguida – os Estados Unidos superaram a crise econômica e a Grande Depressão dos anos 30, atuando decisivamente para a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial.

Morto em 1945, FDR deixou como legado as políticas do New Deal, marcadas por intervenções na economia com o intuito de retomar o crescimento. Seu sucessor e vice-presidente, Harry S. Truman, deu prosseguimento às reformas com o seu Fair Deal e estabeleceu uma política externa em que os Estados Unidos exerceriam sua liderança mundial para conter o avanço do comunismo.

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Harry S. Truman

No entanto, nos anos 50 a economia americana patinava, os escândalos de corrupção na administração democrata se avolumavam e a entrada do país na Guerra da Coreia derrubou a popularidade de Truman. Apesar disso, o presidente pensava em concorrer novamente à presidência, não apenas para manter o controle democrata na Casa Branca mas para impedir que um republicano da ala isolacionista do partido fosse eleito e modificasse bastante a política externa.

 

Os grandes assuntos na ordem do dia em 1952 eram, portanto, a Guerra da Coreia, a luta contra o comunismo (externa e internamente) e a corrupção na administração pública. Três temas que requeriam uma nova liderança capaz de restaurar a confiança do eleitorado em seu governo.

“I Like Ike”: o herói relutante

Truman nunca conseguiu se firmar como grande líder nacional, apesar de sua reeleição em 1948. O papel cabia aos grandes generais que conduziram os EUA à vitória na Segunda Guerra. Entre estes, se destacava o discreto, porém eficiente, General Dwight D. Eisenhower. Comandante das forças aliadas e depois apontado como Supremo Comandante do que viria a ser a Otan, ponta de lança da influência americana e da estratégia militar de contenção do comunismo. Eisenhower foi bem sucedido em ambas as tarefas, e sua popularidade nos EUA era gigante.

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General Dwight D. Eisenhower

Sabendo disso, tanto democratas quanto republicanos procuraram alistar Eisenhower como candidato à presidência. Truman disse em mais de uma ocasião que não concorreria caso Eisenhower se candidatasse, e tentou convencê-lo a ser o candidato democrata. No entanto, o general era mais ligado ideologicamente aos republicanos; estes o procuraram durante anos para trabalhar a favor de sua candidatura.

 

Eisenhower estava relutante. Não pretendia se lançar em uma aventura eleitoral que colocaria em questão sua atuação como líder militar; para ele, as duas coisas jamais deveriam se misturar. Seus apoiadores no Partido Republicano, por sua vez, temiam que sem Eisenhower a nomeação republicana ficaria com o senador Robert Taft, líder da ala isolacionista do partido. Assim, começaram uma campanha popular para convencer Eisenhower a disputar a presidência.

O general não impediu esses movimentos, mas também não os apoiou publicamente. O resultado não poderia ser melhor: sem fazer campanha, Eisenhower venceu as primárias de New Hampshire e manifestações públicas em seu favor eram enormes, com dezenas de milhares de pessoas. Isso fez com que decidisse entrar de vez na campanha, renunciando ao seu cargo e ao Exército em junho de 1952.

17027a_lgNa Convenção Nacional Republicana daquele ano, Taft parecia ter a vantagem com sua máquina partidária. Mas os apoiadores de Eisenhower obtiveram vitórias sobre a aceitação de delegados que Taft conseguiu em primárias e caucus marcados por manobras, virando o jogo a favor do general. No fim da convenção, Eisenhower estava tão fora do jogo partidário que não sabia ter a responsabilidade de indicar diretamente seu companheiro de chapa. Escolheu o jovem senador Richard Nixon, da Califórnia.

Durante sua campanha nas primárias, Eisenhower ficou particularmente tocado pela quantidade de pessoas que o tratava carinhosamente por seu apelido, Ike. O nome gerou uma das campanhas publicitárias eleitorais mais famosas de todos os tempos: I LIKE IKE.

O desafiante democrata

O Partido Republicano conseguiu ter seu melhor candidato em décadas: um herói de guerra, com grande reputação e livre dos escândalos políticos comuns. Truman, como dito, desistiu de concorrer à reeleição. A tarefa de derrotar Eisenhower ficou para o governador de Illinois, Adlai Stevenson, que venceu a Convenção Nacional Democrata na terceira votação.

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Adlai Stevenson

Stevenson era considerado um grande político, capaz de costurar apoios sem comprometer seus ideais e de fazer campanhas muito bem sucedidas. Em 1948, quando foi eleito governador no estado de Abraham Lincoln, teve meio milhão de votos a mais que Truman, o candidato presidencial de seu partido.

 

Sua eloquência e experiência política pareciam ser a única combinação com alguma chance contra um líder carismático que apelava ao eleitorado de ambos os partidos. Mas a tarefa, que já seria difícil em condições normais, provavelmente era impossível diante da impopularidade de Truman e do desgaste dos democratas depois de 20 anos de administração.

A campanha e a vitória de Eisenhower

Eisenhower não quis se restringir aos redutos eleitorais republicanos (na época muito diferentes dos atuais) e chegou a visitar todos os estados, com a exceção do Mississippi. Foi o primeiro candidato republicano após a Guerra Civil a penetrar a barreira democrata no Sul Profundo, estabelecendo a base para o futuro realinhamento sulista a favor dos conservadores.

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Paraquedistas na Guerra da Coreia

Os grandes assuntos da época foram tratados de modo bastante eficiente pela campanha de Eisenhower. Ele fora favorável à intervenção militar na Coreia, mas disse que visitaria o país após a eleição para determinar o melhor curso de ação. Deixou portanto abertas as portas para encerrar o conflito sem defender que o faria imediatamente, como pretendia a ala isolacionista de seu partido. Stevenson, forçado a defender uma guerra impopular, não teve a mesma margem de manobra.

A luta contra o comunismo também foi um assunto em que Eisenhower pôde se mover para o centro, confinando Stevenson ao discurso de que a procura por comunistas no governo era uma caça a “fantasmas”. O general odiava os métodos do senador Joseph McCarthy para perseguir política e juridicamente todos aqueles acusados de serem comunistas; sua defesa da liberdade e das regras do estado de direito era bem recebida, ao vir de um líder que estabelecera a fundação para impedir que o comunismo se alastrasse na Europa.

O problema com o qual a campanha de Eisenhower teve de lidar foi o candidato a vice-presidente, Richard Nixon. Em setembro, um fundo que pagava por despesas políticas de Nixon foi descoberto pela imprensa e se transformou num escândalo. Correndo o risco de ver comprometida sua retórica contra a corrupção administrativa, Eisenhower quis que Nixon renunciasse à candidatura.

O senador da Califórnia respondeu com um discurso em rede nacional, no qual se defendeu das acusações e ressaltou sua origem humilde. O discurso, assistido e ouvido por sessenta milhões de americanos, ficou famoso por sua referência à cadela que as filhas de Nixon receberam como presente devido à atuação política do senador. O nome da cadela, Checkers, acabou entrando para a mitologia política na forma do termo “Checkers speech”, ou seja, um discurso carregado de emoção para desviar o foco de acusações.

A resposta ao discurso foi amplamente positiva. Nixon pediu no ar que enviassem mensagens ao Comitê Nacional Republicano sobre se deveria permanecer na chapa ou não. Milhões de mensagens chegaram e, de forma quase unânime, defendiam Nixon – Eisenhower reconheceu a esperteza política de seu vice e o manteve na chapa. Além disso, a descoberta que Stevenson tinha um fundo bastante similar, mas muito mais polpudo que o de Nixon, fez com que o assunto fosse deixado de lado por ambos os partidos.

1024px-ElectoralCollege1952.svg.pngEm novembro, a vitória de Eisenhower foi enorme, com mais de 6 milhões de votos de diferença no voto popular e por esmagadores 442 a 89 no Colégio Eleitoral. Apenas nove estados deram maioria a Stevenson, a maioria no Sul Profundo. O general venceu em 39 estados (na época, Alasca e Havaí não eram estados, mas territórios) e levou os republicanos à sua maior vitória em décadas, obtendo o controle do Senado e da Câmara.

Desde 1952, nenhum outro candidato presidencial sem experiência anterior em cargo eletivo conseguiu se eleger (neste ano, Donald Trump tentará ser o primeiro a fazer isso em seis décadas). Mas o caso de Eisenhower é muito específico: poucas pessoas públicas contaram com maior prestígio entre o eleitorado do que o general, especialmente devido à sua condução da estratégia dos Aliados na Segunda Guerra. Além disso, Ike não era um novato qualquer: todos os relatos sobre sua pessoa e sua campanha em 1952 indicam que Eisenhower era um gênio político por instinto.

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