Eleições 2000: as mais apertadas da História

Apenas três vezes antes de 2000 o vencedor das eleições americanas não foi o candidato com mais votos. Nunca o Colégio Eleitoral chegou tão perto do empate depois da 12ª emenda. E a decisão levou mais de um mês após fechadas as urnas. Há muito a se dizer sobre as eleições presidenciais de 2000, mas o principal é entender que nenhuma expôs tão bem as particularidades do sistema americano de escolha do presidente, além de todos os problemas e defeitos do processo.

As campanhas

Os candidatos democrata e republicano foram decididos com grande facilidade nas primárias. Al Gore, então vice-presidente, venceu todos os estados e não enfrentou desafios significativos. George W. Bush, filho do ex-presidente George H.W. Bush e governador do Texas, venceu seus adversários (o mais importante deles foi John McCain, que seria candidato em 2008) com facilidade.

Deu-se então a campanha mais acirrada do século passado e até do século seguinte também. Gore evitou aparecer ao lado de Bill Clinton, desgastado pelo escândalo sexual com Monica Levinsky. Bush tentou apresentar uma imagem de compassionate conservatism, ou “conservadorismo empático”, movimento conservador mais afeito a políticas de bem-estar social geridas pelo Estado.

Os assuntos domésticos foram mais importantes que as questões internacionais, que se tornariam as mais prementes dez meses depois da eleição com o ataque ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001. Como sempre, os democratas investiram em sua agenda de progressismo, especialmente com preocupação renovada sobre o meio ambiente (Gore se tornaria um dos mais bem sucedidos ativistas pela causa ambiental); os republicanos focaram sua campanha na integridade e nos valores éticos que teriam sido desrespeitados na presidência Clinton.

Apesar da boa avaliação da presidência democrata, Gore não conseguiu traduzir isso em vantagem real. Seu desempenho de campanha foi inferior ao de Bush, que conseguia se expressar com mais naturalidade e comunicar melhor sua mensagem ao povo americano do interior. Isso fez com que a eleição se tornasse praticamente um empate técnico, a ser decidido por margens minúsculas no eleitorado.

A votação e seus problemas

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Para aqueles familiarizados com o atual mapa do Colégio Eleitoral americano, é de se notar que o resultado em 2000 hoje seria muito mais favorável a Bush do que então. Estados como o Texas tiveram grandes altas em população, aumentando a fatia de deputados e também de votos no Colégio Eleitoral em estados tipicamente republicanos.

A votação foi muito acirrada e as margens de vitória para um lado ou outro foram as menores da História em muitos estados. Em seis estados a diferença entre Gore e Bush ficou abaixo de 2 pontos percentuais. Se Gore tivesse vencido em New Hampshire (onde perdeu por apenas 1,27 p.p.), teria sido eleito. Se Bush tivesse vencido os estados em que perdeu por menos de 1 p.p., não precisaria da Flórida para ganhar a eleição. Além disso, Gore foi prejudicado pelo relativo sucesso da candidatura de Ralph Nader pelo Partido Verde, mais à esquerda: se os eleitores de Nader tivessem votado em Gore, este conseguiria vencer a eleição facilmente.

De todo modo, a Flórida foi o estado mais acirrado de todos e a contagem de cada voto faria uma diferença absurda, pois com os resultados dos outros estados nenhum dos candidatos teria maioria assegurada no Colégio Eleitoral: Bush tinha 246 votos, Gore tinha 267. A vitória na Flórida e a obtenção de seus 25 votos era fundamental para ambos, e a proximidade permitia que qualquer um vencesse. Naquele dia, todos foram dormir sem saber quem havia vencido. E aí começaram os problemas.

Primeiramente, na Flórida há leis que restringem o eleitorado. Ex-condenados por crimes, por exemplo, não podem votar em alguns condados – as listas de votação não continham todos os nomes liberados para votar, entretanto. Em outros, os sistemas de votação por máquinas com alavancas causaram problemas para muitos eleitores votarem. Por fim, as máquinas de contagem de votos apresentaram posteriormente defeitos graves, em que votos podiam ser contados duas vezes ou não serem contados. Ou seja, é impossível saber com certeza absoluta quem venceu de fato a eleição.

O resultado final oficial deu 2.912.790 votos para Bush e 2.912.253 votos para Gore. Uma diferença de pouco mais de 500 votos num universo de quase 6 milhões, em meio a todos os problemas descritos acima. Não foi à toa que a decisão acabou parando na justiça.

A decisão da Suprema Corte

Os democratas exigiram imediatamente uma recontagem. Ela começou a ser feita. Os republicanos, por sua vez, queriam interrompê-la e sacramentar o resultado. A recontagem que foi terminada gerou os números citados acima. Os democratas então tentaram novas recontagens, procurando revalidar votos que teriam sido invalidados e invalidar contagens que pareciam suspeitas.

O caso enfim chegou à Suprema Corte. Em 2000, havia uma maioria de juízes indicados por presidentes republicanos, 5 a 4. E estes foram os que decidiram a favor dos republicanos, interrompendo a recontagem na Flórida em 12 de dezembro, mais de um mês após o dia da votação. Essa decisão acabou com as dúvidas de todos: George W. Bush se tornaria o 43º presidente dos Estados Unidos da América.

No final de tudo, ficou a certeza de inúmeros problemas. Primeiro: os sistemas de votação americanos não são confiáveis, são permeáveis a fraudes e falhas graves e isso é uma ameaça à democracia. Segundo: Gore venceu no voto popular por meio milhão de votos, mas perdeu por quatro no Colégio Eleitoral; a decisão da maioria de indivíduos é substituída pela decisão da maioria dos estados no sistema americano. Terceiro: no que foi essencialmente um empate, Bush obteve 25 votos na Flórida, enquanto Gore não conseguiu nenhum.

A decisão de 2000 fortaleceu a crença entre os democratas de que é preciso modificar o sistema para, de alguma forma, passar a refletir outros valores. Muitos querem revogar leis que limitam o direito de voto; outros acreditam em abandonar o Colégio Eleitoral totalmente; quase todos concordam que é preciso haver melhores sistemas de votação. Entre os republicanos, essas ideias têm sido normalmente rechaçadas por serem vistas como tentativas de criar uma vantagem despropositada para os democratas.

Minha opinião: o sistema americano é arcaico e não tem mais sentido nos tempos modernos. Deveria haver uma regra única sobre direito de voto nos EUA e sobre o método de votação, além do fim do Colégio Eleitoral. Isso não necessariamente beneficiaria os democratas. Muitos eleitores nem votam por estarem em estados “seguros”; sem o Colégio Eleitoral mais eleitores votariam mesmo em estados com ampla maioria para um ou outro partido.

Eleições como a de 2000 ficam para a História por serem momentos nos quais é possível procurar uma saída para problemas vistos no sistema como um todo. Infelizmente não foi o caso até agora, e as eleições de 2016 estão ocorrendo de modo razoavelmente similar ao de 2000. À diferença da eleição de 1800, que merece um texto específico em breve por ter sido determinante para a adoção de novas regras constitucionais, a disputa Bush v Gore não foi capaz de produzir um resultado positivo, apesar de toda a confusão gerada.

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3 comentários sobre “Eleições 2000: as mais apertadas da História

    1. Obrigado, Vitor!

      Antes, uma pequena consideração: sufrágio universal para cidadãos americanos com 18 anos ou mais já existe. Chamamos de sufrágio universal quando não existe impedimento a mulheres ou a pessoas de baixa renda, como havia no passado.

      A diferença é que a eleição americana é indireta. Na prática, há 51 eleições presidenciais, cada uma em um estado, que decidem individualmente quantos eleitores cada candidato receberá para o Colégio Eleitoral. Falarei mais sobre a história do Colégio Eleitoral no futuro.

      Penso que seria muito melhor para os EUA passar a realizar as eleições presidenciais de modo direto, ou seja, quem obtiver maior número de votos no país inteiro seria eleito presidente, extinguindo o Colégio Eleitoral e retirando essa vantagem que os estados menores apresentam. Mas isso enfrenta forte resistência nos EUA, pois a tradição já tem séculos e os americanos pensam muito fortemente nas características federativas do modelo deles.

      Sem contar que isso exigiria uma emenda constitucional, e nos EUA é muito difícil aprovar uma emenda. Além de maioria qualificada na Câmara e no Senado, três quartos dos estados precisam aprová-la também. Como os estados menores, que são muitos, se beneficiam no atual sistema, é muito difícil convencê-los a mudar.

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