Como impedir Donald Trump na Convenção Nacional Republicana

Na terça-feira, dia 22, apenas três candidatos disputarão as primárias republicanas em dois estados: Arizona, onde Donald Trump é favorito absoluto a conquistar os 58 delegados destinados ao vencedor, e Utah, onde Ted Cruz deve passar da barreira de 50% dos votos para ganhar todos os 40 delegados do estado. John Kasich continua na disputa apesar de ter ganhado apenas no estado que governa, Ohio.

Com o campo dividido e o repúdio de boa parte dos republicanos à candidatura de Trump, a chance de nenhum candidato alcançar os 1237 delegados necessários para garantir a nomeação tem crescido. Com isso, as atenções começam a se voltar para a possibilidade de a decisão final ser tomada apenas no final de julho, 45 dias após as últimas primárias, na Convenção Nacional Republicana (RNC). Seria a primeira vez desde 1976 que um candidato não garante a nomeação antes da Convenção.

Diante disso, muitos se perguntam: qual é o caminho das elites republicanas para impedir a candidatura de Donald Trump? Existe mais de uma possibilidade, há diferentes graus de risco e problemas envolvidos em cada opção e é impossível que qualquer resultado satisfaça todas as partes de modo a unir decisivamente o partido para as eleições gerais de novembro. Vamos tratar primeiro das opções mais óbvias e públicas: convenção disputada e convenção negociada. Depois dessas, ainda restam opções mais escusas: mudança de regras e métodos para convencimento de delegados.

Convenção disputada

As convenções partidárias são eventos políticos de grande magnitude. É o momento em que milhares de representantes partidários se reúnem em um centro de convenções, numa cidade escolhida com grande antecedência, para deliberar a respeito dos rumos do partido em direção às eleições gerais. Neste ano, a RNC ocorrerá em Cleveland, Ohio, entre os dias 18 e 21 de julho.

Em todas as convenções, os delegados de cada estado se reúnem para votar no candidato presidencial. Nesse primeiro voto, espera-se que o vencedor das primárias no país todo obtenha a maioria dos votos, sagrando-se nomeado para disputar a presidência. Como serão 2472 delegados, o número de votos necessário para atingir a maioria simples é 1237.

Mas e se nenhum candidato alcançar esse número na primeira votação? Isso não acontece desde 1948 no Partido Republicano. Nesse ano, Thomas Dewey tinha o maior número de votos, mas não foi suficiente para assegurar maioria na primeira votação. Então candidatos com menos votos se reagruparam em torno dos candidatos com mais votos, tornando claro que Dewey tinha maior aceitação (embora não maioria ainda) na segunda votação.

Antes da terceira votação, o candidato em segundo lugar, Robert Taft, abriu mão em favor de Dewey, e todos os delegados então apoiaram aquele que seria o nomeado. Mas isso não impediu que o partido fosse disputar a eleição fraturado, o que contribuiu para a surpreendente vitória de Harry S. Truman, então presidente mal avaliado.

Em 2016, algo similar pode acontecer: Trump, Cruz e Kasich disputariam uma primeira votação, em que nenhum deles conseguiria obter maioria. Então os delegados remanescentes poderiam apoiar Cruz contra Trump, ou mesmo outro candidato, até que a maioria fosse atingida. No entanto, isso pode acontecer também a favor de Trump (e se ele obtiver mais delegados, como parece provável, também estaria mais perto de alcançar um consenso).

Convenção negociada

Antes da convenção, saberemos com clareza quantos delegados apoiam cada um dos candidatos. Sabendo disso, candidatos minoritários podem negociar, junto com as elites republicanas, uma candidatura de consenso anti-Trump. Ou o contrário: Trump pode convencer uma quantidade suficiente de candidatos minoritários a apoiá-lo já na primeira votação. Essa possibilidade é a chamada brokered convention, ou convenção negociada.

Isso aconteceu em 1976. Nas primárias (que ainda não eram realizadas como hoje, em quase todos os estados), o então presidente Gerald Ford sofreu a concorrência de Ronald Reagan e não conseguiu atingir a maioria necessária. No entanto, conseguiu a maioria ao negociar entre os delegados não comprometidos com nenhum dos candidatos e assim obteve maioria logo na primeira votação.

Outro exemplo, muito mais antigo, foi em 1912. O ex-presidente Ted Roosevelt desafiou seu sucessor, Howard Taft, pela nomeação republicana. A disputa nos bastidores não foi bonita, e Roosevelt acabou derrotado pelos defensores da reeleição de Taft. Furioso, candidatou-se pelo Partido Progressista recém-formado e acabou conseguindo mais votos na eleição geral do que Taft, e ambos foram derrotados pelo democrata Woodrow Wilson.

Nota-se um padrão: nenhum candidato republicano que passou por uma convenção disputada ou negociada nesses três exemplos conseguiu vencer as eleições gerais em sequência, dois deles presidentes em exercício. Afinal, isso revela uma falta de consenso básico entre as bases partidárias e os eleitores do partido, dificultando o esforço necessário para derrotar um adversário mais unido.

Especula-se que uma convenção negociada pode trazer nomes que não disputaram as primárias, como o candidato anterior à presidência Mitt Romney, ou o presidente da Câmara dos Deputados e candidato anterior à vice-presidência, Paul Ryan. Ambos gozam de grande prestígio entre a maioria das elites republicanas e também entre a base. Mas a entrada de um novo candidato sem que este passe pelas primárias deste ano seria vista como ilegítima e não serviria em nada para unir o partido – embora talvez ajudasse para derrotar Trump.

Mudança de regras

Agora passamos a métodos um pouco mais questionáveis aos olhos da opinião pública e certamente mais contestáveis para impedir Trump. Mudar as regras da Convenção é uma possibilidade real que facilitaria a possibilidade de resolver o problema mesmo que Trump obtenha a maioria de delegados necessária.

Apesar de parecer imediatamente errado, a verdade é que as regras para a RNC 2016 ainda não existem e regras novas são acrescentadas a cada ciclo eleitoral de acordo com a conveniência. No momento, o referencial de regulamentação do procedimento partidário para a Convenção são as regras utilizadas em 2012. Qualquer regra poderia ser introduzida para ajudar o partido a realizar as manobras necessárias para impedir Trump – por exemplo, passar a exigir 60% dos delegados. O problema é que o eventual nomeado precisaria satisfazer as mesmas exigências.

Por exemplo: em 2012 a regra 40 (b) (ver link acima) dizia que um candidato só poderia ser considerado apto a ser escolhido se tivesse maioria dos delegados de oito estados. Essa regra foi introduzida pouco antes da Convenção em 2012, com o objetivo de impedir uma votação dividida no primeiro turno entre os eleitores de Romney e Ron Paul. Romney tinha maioria absoluta de delegados, mas os líderes republicanos julgaram melhor apresentar um partido unido logo na primeira votação.

Isso não é exclusividade republicana. No meio da convenção democrata de 2008, Hillary Clinton propôs que a votação (que perderia inevitavelmente) fosse suspensa e que Barack Obama fosse eleito por aclamação. E assim foi feito. Convenções partidárias não possuem um código prévio que permita prever claramente como vão se desenrolar. Mudar as regras de exigência para nomeação ou para votação ainda está em poder dos líderes republicanos.

Como dito, no entanto, isso não parece certo. Donald Trump já adiantou que não pretende respeitar seu acordo de apoiar o nomeado republicano se sentir que foi tratado de modo injusto – e seus arroubos retóricos nem sempre ficam apenas no nível de ameaça. Trump teria motivos para lançar sua candidatura independente, dividindo votos e lealdades no Partido Republicano e praticamente assegurando a vitória de Hillary Clinton.

Esse talvez seja o maior motivo da contenção do presidente do Partido Republicano, Reince Priebus, ao tratar da candidatura Trump. O cartola partidário teme os efeitos eleitorais de uma candidatura independente ou de uma ostensiva oposição de Trump ao eventual nomeado. Mas a escolha não é fácil: Trump tem potencial para destruir o partido por dentro, especialmente se as previsões de catástrofe nas eleições gerais estiverem certas. Desatar esse nó górdio mudando as regras – como fez Alexandre, aliás – é uma possibilidade perigosa.

Escolha dos delegados

Mas não é a única possibilidade. Para além dos acordos de elite entre candidatos e líderes do partido, quem vota na Convenção são os delegados, decididos em cada estado. E aí mora a maior complexidade para um esquema de contenção de Trump: cada estado ou território decide como delegados são alocados e definidos.

Isso mesmo: não basta termos estados “winner-takes-all”, “winner-takes-most”, caucus, proporcionais, semiproporcionais, cláusulas de barreiras, “loophole”, praticamente um conjunto de regras diferente em cada um dos 56 estados, territórios e Distrito de Colúmbia. Não são só as regras eleitorais diferentes, as regras para escolher os delegados de cada candidato são diferentes.

Como vimos em Illinois, em alguns casos os delegados são eleitos diretamente, prometendo apoiar este ou aquele candidato presidencial. Em outros, também são eleitos mas não precisam dizer quem vão apoiar – é o caso do Colorado. Mas na maioria dos estados as regras levam a uma escolha entre os dirigentes partidários, que vão para a Convenção obrigados a votar de acordo com os resultados eleitorais no estado.

Essa obrigação de votar em Trump se o seu estado, nas primárias, decidiu enviar delegados para votar em Trump, não dura por toda a Convenção. As regras variam imensamente, mas na maioria dos casos os delegados estão obrigados a votar em outro candidato somente na primeira ou até a segunda votação. Ou seja: se não houver nomeado, os delegados ficam livres para apoiar quem preferirem.

Um artigo recente trata dessa possibilidade. E nesse caso, uma estratégia voltada a escolher delegados que mudariam de ideia a partir da segunda ou da terceira votação pode ser tomada pelo partido ou por apoiadores de um candidato. Outra necessidade será garantir que os delegados de fato votem em um candidato que possa obter maioria, e muito provavelmente as famosas promessas do varejo político jogarão papel fundamental: promessas de cargos e verbas, apoios para eleições futuras, acordos de patronagem, etc.

Novamente, Donald Trump pode aliciar delegados com um esquema similar ele próprio. E é bom não desconfiar da capacidade do bilionário em realizar acordos bastante razoáveis para si. Trump tem uma vantagem sobre um candidato como Ted Cruz: se é difícil que Trump vença Clinton, também é difícil para Cruz, mas este só poderá entregar suas promessas se eleito, enquanto Trump tem muitos recursos pessoais. Contra Kasich, tanto Trump como Cruz possuirão a vantagem de ter muito mais delegados na primeira votação.

A única certeza que temos é que a 41ª Convenção Nacional Republicana vai ser uma das mais interessantes de todos os tempos, se não a mais interessante. Afinal, mesmo que Trump consiga ter a maioria de delegados e não seja atrapalhado por qualquer um desses esquemas, sua candidatura baseada em sua habilidade como showman não vai ser ignorada em lugar algum dos Estados Unidos.

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